O PAPEL INDIVIDUAL NA EPIDEMIA DE CORONAVÍRUS

Por Nazira Scaffi, em 27/03/2020

há dois dias, depois de uma semana e meia de isolamento social, posicionamentos políticos colocaram a nós, brasileiros, num ambiente de incertezas e insegurança sobre como nos defender na epidemia do novo coronavírus. O que nos restou é cada um de nós ter que definir o papel individual na proteção contra a epidemia.

De fato, ficamos desprovidos do direcionamento que estratégia inicialmente e firmemente delineada parecia assegurar. Agora, em lugar da máxima proteção social possível, o Brasil coloca vidas em risco apra defender a economia.

O que nos restou é cada um de nós ter que definir o papel individual na proteção contra a epidemia.

Para entender o impasse que estamos vivendo precisamos refletir sobre a evolução das estratégias de prevenção externas e locais. Isso deve ser feito considerando aspectos científicos, econômicos e políticos mais atuais.

TUDO É “MUITO” NESSA EPIDEMIA.

Tudo está evoluindo tão rápido, que mal dá para respirar antes que mais novidades sobre a epidemia de coronavírus surjam. De fato, é de se ficar tonto diante do afluxo de notícias, debates, comentários, de gráficos de evolução dos casos, das mortes, do número de leitos, da falta de materiais, do emprego de recursos governamentais, entre uma infinidade de coisas.

Aliás, a palavra epidemia significa exatamente isso: eventos novos, em proporções maiores do que o esperado, em um curto intervalo de tempo. Quando a epidemia ultrapassa as fronteiras nacionais, torna-se uma pandemia.

Não obstante, o tempo de escuta dos noticiários permitiu ter uma noção de como enfrentar a epidemia. E apesar de todas as dificuldades econômicas que essa estratégia iria provocar, a sociedade brasileira estava gradualmente se organizando e se preparando para enfrentar os dias de isolamento social. 

A motivação vinha do Ministro da Saúde, que com firmeza e clareza nos estimulava a aderir e a sociedade estava aderindo porque fazia sentido. Tínhamos a esperança de poder controlar o número de mortes nos resguardando no período certo.

Porém, os setores da economia, insatisfeitos com as perdas de capital que essa paralização estava levando, se levantaram e protestaram. Ao que o Presidente do Brasil concordou.

E toda a estratégia está tomando uma nova direção para proteger o mercado com medo das perdas econômicas decorrentes da quarentena.

No redirecionamento das ações de prevenção, o que mais nos atordoa é o tanto de informações contraditórias, sejam científicas, da evolução epidemiológica, sobre a estratégia mais adequada para a contenção da evolução da epidemia com o menor dano social e econômico possível.  

A comoção que isso causa é agravado pelo conflito e o oportunismo político visível e escancarado para toda a sociedade brasileira.

ESTAMOS SEM PAI NEM MÃE

A população que ia progressivamente se organizando e aderindo a estratégia de prevenção horizontal, ficou pasma e desorientada. E, como filhos que tem que optar em ficar com o pai ou a mãe num divórcio,  a população brasileira se ressente e toma partido; irmãos entram e discórdia.

Provavelmente tentando reduzir os danos, o Ministro da Saúde, instado a mudar o tom e a direção das ações, passou a adotar uma atitude de conciliação. Medida até certo ponto prudente, pois uma insurgência social neste tempo de epidemia poderia causar um dano ainda maior.

Porém, não ter uma liderança firme e assertiva na direção da estratégia que mais fazia sentido ao entendimento da população informada pelos meios de comunicação, causa insegurança e ansiedade, deixando grande parte da população brasileira “sem pai nem mãe”.

Dentre tantas informações, apenas permanecem imutáveis três obvias orientações de prevenção na tentativa da redução do número de mortes: 1. a importância da higiene pessoal; 2. o cuidado com os idosos e 3. o uso de máscaras se estiver com sintomas de gripe.

Cuidar dessas 3 diretrizes é o ponto de partida para a definição o papel individual na proteção contra a epidemia.

PROTEÇÃO DA ECONOMIA OU DOS INDIVÍDUOS?

Nessa guinada de direção, assim como ocorreu em Milão na Itália e agora nos EUA, a epidemia do novo coronavírus o impasse comum nos tempos de guerra: o que importa mais é assegurar o poder econômico ou proteger as vidas humanas?

Posto que a vulnerabilidade biológica de todas as pessoas geral é inegável, a diferença no impacto que cada país vai ter ou tem é condicionada pelas estratégias locais de prevenção, de contenção da disseminação do vírus e de capacidade de atendimentos dos casos de doença.

No início, vimos a China enfrentando as duas questões ao mesmo tempo: proteger o CAPITAL e proteger as VIDAS.

Para proteger o capital interno e assegurando sua estabilidade econômica, a China fechou fronteiras, criou hospital em 7 dias. Há quem desconfie que a China tentou, inclusive, esconder a epidemia, comentário que causou muita indignação. O fato é que o controle da epidemia em seu país, enquanto os demais estão vivendo o auge de seu impacto e outros nem sabem ainda como vão ser afetados, coloca a China em vantagem econômica.

Enquanto estamos vivendo a incerteza quanto a gravidade da epidemia, e demoramos para tomar medidas firmes e sensatas, nossa vulnerabilidade aumenta.

Foi o que aconteceu em países afetados por essa incerteza, embora ricos e com estrutura de saúde de primeiro mundo.  A Itália e Espanha só adotaram uma estratégia de isolamento social quando as taxas de mortalidade pelo coronavírus ficaram assustadoras.

O QUE OS OUTROS PAÍSES PRATICARAM

Aprender com os países que já foram grandemente afetados é fundamental. Mesmo que as condições climáticas, sociais ou econômicas sejam diferentes. Portanto, as experiências na Ásia, Europa e Oriente Médio têm muito a nos ensinar.

Dentre esses países que foram inicialmente afetados pelo Coronavírus, a maioria na Ásia e na Europa, podemos observar 3 tipos básicos de reação:

  1. Regimes autoritários como o da China que forçaram as pessoas a ficarem em casa, sob pena de prisão, alcançaram um controle relativo do crescimento do número de infectados e mortos.
  2. Países asiáticos de economia mista com laços entre o governo e a iniciativa privada, com estrutura de seguridade social, como a República da Coreia e a Alemanha, adotaram rapidamente as diretrizes da barreira horizontal, conquistando reduzido número de mortos.
  3. Países que não queriam desacelerar a economia fazendo quarentenas, porque vinham se restabelecendo da crise da falta de empregos como Itália e Espanha, contam com as mais altas taxas de morte e estão agora em isolamento social.

O prefeito de Milão, reconheceu o erro da campanha “Milão não para” que foi contra à proposta de absoluto isolamento social de toda a Itália para combater o vírus. Justamente há um mês, em 27 de fevereiro, a região da Lombardia, onde fica Milão, tinha 250 pessoas contaminadas e 17 mortos. Hoje, 27/03, essa região registrou com 5.402, com 37.298 doentes. Nas últimas 24 horas, a Covid-19 matou 541 pessoas na região, segunda pior estatística desde que a epidemia começou.

É este tipo de equívoco que tememos com um “O Brasil não pára”.

O Brasil está, ainda, no início da epidemia. Há 2 semanas começamos a contar mortos ao que se seguiu uma firme iniciativa de estímulo ao isolamento social, orientando para a estratégia horizontal de contenção da epidemia. Se mudarmos e estratégia, se abrirmos o mercado para proteger a economia, que preço vamos pagar em termo de vidas?

O que vai acontecer conosco, só Deus sabe.

COMO OS BRASILEIROS VÃO SE DEFENDER

Os argumentos para interromper a quarentena se apoiam nas falas de médicos-políticos, nas taxas de desemprego e de empobrecimento, na hipótese da eficácia da prevenção vertical, ou seja – de se isolar apenas os idosos – considerados o grupo de risco – deixando a população economicamente ativa circulando. Também se argumenta que o clima quente inibe a disseminação do vírus.

De fato, nosso país tem muitos climas, muitos povos, muita desigualdade econômica e muita desordem e conflitos políticos.   

Mas o que importa é que o Brasil está deixando de se basear em experiências e estudos já realizados pela OMS, pelos epidemiologistas, infectologistas, pneumologistas e outros cientistas envolvidos no problema e desastre que a defesa do mercado em Milão Na Itália, provocou.

O debate se polarizou entre fazer quarentena para salvar vidas ou não fazer para preservar a economia, quando poderia levar a um posicionamento intermediário para salvar vidas e a economia.

Para isso é preciso um governo forte e assertivo, inteligente e rápido para agir e não deixar todas as decisões que dizem respeito à epidemia em um só setor – a saúde – como estava acontecendo.

Em vez disso, entretanto, o posicionamento adequado poderia ser algo intermediário. Por meio da contínua conscientização da sociedade, permitisse o comércio abrir, mudando sua forma de atender os clientes. Evitando aquelas atividades de trabalho que aglomeram pessoas como os call center, regulando a mobilidade social, abrindo os parques para as pessoas se exercitarem, com o cuidado de manter a distância recomendada, como foi feito na Alemanha.

Enquanto uma questão tão importante de saúde se transforma numa discussão política partidária, dando espaço ao oportunismo político. Nós brasileiros sem confiança na direção da estratégia, estamos caindo na situação de cada um por si.

O PAPEL INDIVIDUAL NO ENFRENTAMENTO DA EPIDEMIA

Traduzindo para o atual problema:  E agora, ficamos ou saímos de casa?

Quando o governo opta por uma medida radical de abertura do mercado e, para justificá-lo, desconsidera a gravidade dessa epidemia, tratando-a como uma gripezinha, a polarização na sociedade se transforma numa guerra entre quem se importa ou não com o número de mortos.

Entretanto, embora o embate dicotômico esteja instaurado na sociedade brasileira não é isso que retrata a natureza de nosso povo. O Brasil está apenas sem direção.

O que falta é um estímulo ao protagonismo social, ao exercício do cuidado individual e coletivo, atitudes que um bom governante pode exortar num povo que se caracteriza por uma natureza conciliadora e compassiva,

Ainda que seja uma doença populacional, podemos ter o nosso protagonismo no enfrentamento dessa epidemia.

O que se sabe é que qualquer direção trará danos e benefícios. Mas tudo se cura com maior ou menor dor. A economia se recuperará com trabalho. A dor das perdas desnecessárias ou precoces também amenizará com o tempo.

Portanto, até que se esclareça a direção que o nosso país vai tomar no enfrentamento dessa epidemia, cabe a cada um de nós, tomar as medidas de precaução ou de prevenção necessárias para a manutenção da vida e saúde. Nesse sentido, o texto de nosso blog: “Orientações para o autocuidado em tempos de coronavírus” é uma orientação na definição do papel individual na proteção contra a epidemia.

Entretanto, ainda há esperança de que essa experiência resulte em bons aprendizados. Se isso não ocorrer, a sociedade brasileira vai se deparar com os mesmos dilemas na próxima epidemia.

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